O mercado automotivo passa por transformações que vão além da eletrificação. Enquanto a Leapmotor chega à Argentina para disputar espaço com a BYD, os carros cada vez mais conectados levantam uma nova questão: por quanto tempo os sistemas digitais continuarão funcionando e recebendo atualizações?
Leapmotor chega à Argentina para disputar espaço com a BYD
A Leapmotor iniciou sua operação na Argentina com dois crossovers híbridos do tipo EREV, em uma estratégia apoiada pela Stellantis para ampliar a concorrência no mercado de eletrificados.
A marca chega ao país com os modelos B10 e C10, posicionados em faixas de preço próximas às oferecidas pela BYD. A estratégia busca aproveitar o crescimento acelerado dos veículos eletrificados na Argentina, onde a BYD atualmente concentra cerca de 89% das vendas de elétricos.

No primeiro semestre de 2026, aproximadamente 10.800 veículos eletrificados foram vendidos no país, incluindo híbridos plug-in e modelos totalmente elétricos. Com esse cenário, a chegada da Leapmotor aumenta a disputa por um mercado que ainda possui bastante espaço para expansão.
A Stellantis também oferece uma vantagem importante para a nova marca: uma estrutura comercial já estabelecida. A Leapmotor utiliza uma rede com 12 pontos de venda e 20 unidades dedicadas ao pós-venda, além de contar com serviços básicos em mais de 300 unidades vinculadas ao grupo.
B10 e C10 apostam na tecnologia EREV
Os dois modelos utilizam a tecnologia EREV, na qual o motor a combustão funciona como gerador para alimentar a bateria, enquanto a tração permanece sob responsabilidade do motor elétrico.
O Leapmotor B10 utiliza uma bateria LFP de 18,8 kWh e consegue rodar até 95 km exclusivamente com eletricidade. O motor elétrico entrega aproximadamente 215 cv.

Já o C10 possui dimensões maiores e utiliza uma bateria LFP de 28,4 kWh. O SUV alcança até 170 km de autonomia elétrica pelo ciclo NEDC e também entrega cerca de 215 cv.
Os preços partem de aproximadamente US$ 31.990 para o B10 e US$ 35.500 para o C10. Com valores próximos aos praticados pela BYD, a Leapmotor aposta no equilíbrio entre tecnologia, autonomia e custo para conquistar consumidores argentinos.
A principal dificuldade, porém, está na variedade de produtos. Enquanto a Leapmotor inicia sua operação com apenas dois modelos, a BYD já oferece uma gama mais ampla no país, incluindo SUVs, modelos compactos, híbridos e até uma picape.
Carros conectados criam uma nova preocupação para o mercado de usados
A evolução tecnológica também está mudando a forma como os consumidores enxergam a durabilidade de um automóvel. Tesla, Rivian e outras fabricantes vêm desenvolvendo veículos definidos cada vez mais por software, capazes de receber atualizações remotamente e ganhar novas funções depois da compra.
A proposta permite que o carro continue evoluindo com o passar dos anos. Atualizações podem corrigir falhas, melhorar sistemas de assistência e até adicionar novos recursos sem que o proprietário precise levar o veículo a uma oficina.

O problema aparece quando o hardware deixa de acompanhar os softwares mais recentes.
Nos Estados Unidos, os veículos já alcançam idade média de 12,8 anos, enquanto a tecnologia embarcada avança em ritmo muito mais rápido. Isso cria uma dúvida importante: um carro poderá continuar funcionando normalmente, mas perder parte de suas funções digitais com o passar do tempo?
Um exemplo aconteceu quando a rede 3G foi desativada nos Estados Unidos. Milhões de veículos perderam alguns serviços conectados que dependiam daquela tecnologia, embora continuassem funcionando mecanicamente.
Hardware pode definir o valor de um carro usado
A Tesla também já enfrentou esse desafio com seus sistemas de condução assistida. Alguns veículos equipados com computadores mais antigos precisarão de componentes atualizados para utilizar futuras versões de determinadas funções.
A Rivian, por outro lado, afirma que projeta seus veículos com capacidade adicional de hardware para suportar aproximadamente sete a dez anos de atualizações.

A questão pode ganhar ainda mais importância no mercado de usados. Um veículo que continua recebendo atualizações pode preservar melhor seu valor, enquanto outro com hardware ultrapassado e sem suporte pode se tornar menos interessante para compradores.
Além disso, ainda faltam padrões claros para avaliar o estado dos recursos digitais de um carro usado. Questões como suporte de software, calibração dos sistemas de assistência, privacidade de dados, assinaturas e serviços conectados podem passar a fazer parte da avaliação de um veículo assim como quilometragem, histórico de manutenção e estado da carroceria.
A manutenção dos carros também pode mudar
A evolução dos veículos definidos por software também cria novos desafios para oficinas e proprietários. Componentes eletrônicos podem exigir ferramentas específicas, acesso a programas proprietários e conhecimento técnico mais especializado.
Por isso, as discussões sobre direito ao reparo ganham força. A possibilidade de permitir que proprietários e oficinas independentes tenham acesso a ferramentas e informações de manutenção pode ajudar a prolongar a vida útil desses veículos.
No futuro, fabricantes também poderão precisar definir por quanto tempo oferecerão suporte aos sistemas digitais. Quando uma empresa deixar de atualizar determinado modelo, o acesso de terceiros aos programas e ferramentas poderá se tornar fundamental para manter o veículo funcionando plenamente.
Uma nova fase para os automóveis
A chegada da Leapmotor à Argentina mostra como a eletrificação continua atraindo novos concorrentes e aumentando a disputa entre fabricantes. Ao mesmo tempo, a evolução dos carros conectados cria desafios que a indústria ainda precisa solucionar.
O automóvel do futuro não será definido apenas pelo motor, pela bateria ou pelo design. Software, hardware, conectividade e suporte ao longo dos anos também poderão determinar quanto um carro vale e por quanto tempo ele continuará atualizado.
A indústria, portanto, começa a lidar com uma questão que os smartphones já enfrentam há anos: não basta fabricar um produto avançado, também é preciso garantir que ele continue útil depois de envelhecer.
